Pelos Caminhos de Santiago com Álvaro Lazaga

Pelos Caminhos de Santiago com Álvaro Lazaga

artigo iNature

Por fé ou pelo simples prazer e liberdade de andar a pé, são cada vez mais as pessoas que caminham rumo ao desconhecido. Alvaro Lazaga é um deles. A iNature foi ao encontro deste caminheiro para perceber porque vai pela 56ª vez a caminho de Santiago de Compostela e descobriu algo surpreendente: há milhares como ele.

“Creio que não consigo preservar a minha saúde física e mental se não passar quatro horas por dia, pelo menos (…) a deambular pelos bosques, montes e vales, absolutamente alheado de todas as obrigações mundanas”, Henry David Thoreau, em “Andar a pé”.

O quotidiano da sociedade humana contemporânea pode não permitir em pleno a prática de Henry David Thoreau espelhada na sua obra “Andar a pé”, mas são cada vez mais aqueles que, por fé, saúde ou simplesmente por gosto, procuram na simplicidade de caminhar uma liberdade regeneradora, meio selvagem, ou a busca incessante pelo desconhecido, como defende o ensaísta e poeta norte-americano.

Alvaro Lazaga (Alvaro), é uma dessas pessoas. Natural de Benidorm, Espanha, este espanhol de 58 anos não faz outra coisa nos últimos anos a não ser andar a pé. A iNature recebeu-o e ao seu companheiro de viagem, Jorge Andrade (Jorge), no dia 15 de maio na Aldeia Histórica de Castelo Novo, a meio da etapa do Caminho Nascente de Santiago, entre Póvoa de Rio de Moinhos e a cidade do Fundão. Passo a passo, dia 24 de maio Alvaro chegará a Santiago de Compostela pela 56ª vez.

A atração pela descoberta

Em 2023, chegaram a Santiago de Compostela 442 mil peregrinos: Chegaram pelos vários percursos criados desde o século IX pelos crentes do Apóstolo Santiago Maior. Quase metade tinham nacionalidade espanhola e chegaram pelo Caminho Francês, e a grande maioria levava na mochila uma motivação religiosa. Todavia, cerca de 100 mil (22%) não caminharam por fé. Alvaro é um deles.

“Faço-o por gosto, pela experiência, pela descoberta constante”, diz. “Cada Caminho é diferente e é uma experiência única. Alguns são montanhosos outros planos, mas todos têm aldeias, castelos, comidas e pessoas diferentes, e tudo isto faz parte de uma experiência única que muda de caminho para caminho.”, diz.

Na última década, o número de caminheiros que fez algum dos Caminhos de Santiago sem qualquer motivação religiosa aumentou dez vezes. Paulo Cavaleiro (Paulo), cofundador da Upstream Portugal, uma operadora e consultora na área do turismo, tem uma explicação. “Hoje, fazer os Caminhos de Santiago, é uma experiência de motivação”, diz. “É uma oportunidade de conhecer algumas regiões do país, a suas culturas, gentes e patrimónios da melhor maneira que existe, a andar a pé”, acrescenta.

Muito mais do que uma caminhada

“Caminhar tem-me permitido um conhecimento e experiências extraordinárias, algo que não conseguiria alcançar de outra maneira”, explica Alvaro. Quando passou em Évora teve conhecimento da Capela dos Ossos que aproveitou para conhecer e, em Cuba, onde foi recebido de forma calorosa pelos residentes ficou a conhecer o cante alentejano, comeu com gentes da comunidade local e ficou a saber que foi ali que nasceu Cristóvão Colombo.

Em Castelo Novo, além de uma visita guiada pela aldeia, teve a oportunidade de provar o típico cabrito assado no forno com batatas e espargos, acompanhado por um vinho da região. E, como estas, serão inúmeras as experiências que terá até chegar ao seu destino.

“Cada ‘peregrino’ é um veículo de publicidade”, diz Paulo. Para o cofundador da Try Portugal, os vários caminhos existentes em Portugal são uma forma de captar turistas adeptos da natureza e das experiências autênticas e genuínas que os territórios do interior têm para oferecer. “Muitos destes caminheiros regressam depois com a família aos locais por onde passaram”, defende.

A Try Portugal colaborou com as entidades regionais de turismo do Alentejo e do Ribatejo na marcação e promoção dos Caminhos de Santiago que passam nas duas regiões – Caminhos de Santiago no Alentejo e Ribatejo -, o Caminho Central, o Caminho Central via Atlântico, o Caminho Nascente e o Caminho da Raia. Agora, o empreendedor está a encetar esforços para fazer o mesmo na região das Beiras e a trabalhar um projeto transfronteiriço, a Via da Estrela, um percurso que liga a Via da Prata, um caminho jacobeu com larga história em Espanha, e os Caminhos de Santiago Nascente e Interior, que atravessa a Serra da Estrela.

Uma comunidade interligada

“Para nos tornarmos caminhantes, precisamos de uma licença direta dos céus. Há que ter nascido caminhante para pertencer a esta casta”, diz Thoreau. Bom, já não é bem assim.Alvaro chegou a um ponto na vida em que disse “basta”. Despediu-se do emprego, vendeu um pequeno negócio que tinha e decidiu aproveitar a vida enquanto a saúde lhe permite e partilhar as suas experiências com o mundo. Criou um canal no Youtube e uma página no Facebook onde publica diariamente as experiências das jornadas, partilhas que lhe valem milhares de seguidores e amigos virtuais que estão em constante contacto com o caminheiro espanhol.

Jorge é um deles. Natural do Funchal, ilha da Madeira, este informático de 54 anos apaixonou-se pelas caminhadas durante o período da pandemia. “Passava dias inteiros a ver os vídeos do Alvaro na internet”, conta. Quando soube que Alvaro ia fazer o Caminho Nascente de Santiago ofereceu-se para o acompanhar na sua 56ª jornada para Santiago de Compostela. “Voou” para Faro e, no dia 10 de abril, o gosto comum de caminhar juntou os dois caminheiros e até então amigos virtuais numa aventura real.

As redes sociais deram origem a comunidades de caminheiros que se entreajudam e a internet trouxe o tempo que alguns precisavam para libertar o caminheiro que há em si. O madeirense é um exemplo. O funchalense é um nómada digital, carrega o trabalho às costas. “Um quilo e meio, é o maior peso que tenho na bagagem”, diz, sobre o computador que traz na mochila. “Eles [colegas de trabalho] sabem que só me podem incomodar depois das cinco”, diz, a rir.

Novas tecnologias, velhas paixões

A mudança originada pela tecnologia trouxe também mais segurança às caminhadas. Aplicações como a usada por Jorge, o Wikiloc, orientam os caminheiros pelos caminhos por vezes “sujos” e confusos, e do cruzamento de experiências entre os utilizadores, brotam dicas e conselhos sobre onde comer, onde dormir, atalhos, curiosidades e surpresas que possam encontrar.

À custa desta interligação e novos instrumentos, Alvaro até arranjou quem o ajude a encontrar dormida e comida no final das etapas. Já o conhecia há muito tempo da internet, mas só há alguns dias é que se encontraram no mundo real. “O Luís foi de Lisboa ter comigo a Estremoz para nos conhecermos pessoalmente”, conta. “É impressionante o que está a acontecer. Esta entreajuda e acomunidade que se gerou. É extraordinário”, diz Alvaro.

Mais do que uma licença dos céus. Alvaro, Jorge, Luís, Paulo e a esposa Dora, que vieram acompanhar os dois caminheiros na travessia da Serra da Gardunha, entre Castelo Novo e o Fundão, são o exemplo de uma nova geração de caminheiros movidos pela paixão do desconhecido, um novo segmento de turismo em crescimento alimentado pelo espírito vagabundo dos peregrinos de antigamente, e agora facilitado pelas tecnologias dos tempos contemporâneos.

Mas é, sobretudo, um turismo de liberdade e alicerçado na crença que é passo a passo que se conseguem as melhores e mais genuínas experiências que um viajante pode ter.

Artigo da iNature aqui: https://inature.pt/inature/noticias/noticia/?nid=pelos-caminhos-de-santiago

Para mais informações geral@upstream-portugal.pt

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